Acervo & Ensaio — Museu de Filatelia Sérgio Pedro: Postal Ilustrado Comemorativo da III FLAVEX (Porto...:
Quando se estuda uma peça relacionada com uma exposição filatélica, é frequente que a atenção recaia sobre a vinheta, o postal ilustrado ou o carimbo comemorativo. No entanto, do ponto de vista da marcofilia, há casos em que a verdadeira história da peça é contada pela sequência das suas obliterações. O postal da III FLAVEX – Exposição Filatélica Artístico-Humorística, realizado no Porto em janeiro de 1950, é um excelente exemplo.
Uma peça preparada para a exposição
O postal ilustrado foi produzido especificamente para a III FLAVEX, realizada em 21 de janeiro de 1950. Apresenta o cabeçalho «Arte Humor», o slogan «Conheça a poesia dos selos» e reproduz o poema Pombo-Correio, de António Correia d’Oliveira.
A franquia é assegurada por um selo da emissão Caravela Portuguesa, no valor de 50 centavos, ao qual foi associada uma vinheta comemorativa da exposição, posteriormente obliterada.
À primeira vista, poderíamos classificá-lo apenas como mais um souvenir filatélico. Contudo, a análise das marcas postais revela uma realidade mais interessante.
O carimbo comemorativo da III FLAVEX
A primeira marca relevante é o carimbo comemorativo da exposição, datado de:
PORTO
21 JAN 1950
Este carimbo testemunha diretamente a realização do evento e constitui o elemento marcofílico mais evidente da peça.
Para além da função obliteradora sobre o selo postal, o cunho foi também aplicado sobre a vinheta da III FLAVEX, prática comum em exposições filatélicas da época. Desta forma, a vinheta deixava de ser um mero elemento decorativo e passava a integrar formalmente o conjunto comemorativo produzido durante o certame.
O carimbo apresenta ainda uma composição ilustrada associada à legenda:
EXPO. FILAT. ART. HUMORÍSTICA
sublinhando a identidade própria da exposição.
A obliteração mecânica dos CTT
É, porém, a segunda intervenção postal que confere especial interesse à peça.
Após a sua aceitação no Porto, o postal seguiu o circuito normal dos Correios e foi tratado em Lisboa por uma máquina obliteradora, que deixou registado:
LISBOA
22 JAN 1950
acompanhado da habitual flâmula ondulada.
Esta marca demonstra que o postal não ficou retido no universo exclusivamente filatélico. Entrou efetivamente no circuito postal e foi processado pelos serviços dos CTT como qualquer outro objeto de correspondência.
Duas obliterações, duas funções
O aspeto mais interessante reside precisamente na coexistência destas duas marcas.
A primeira obliteração possui uma clara função comemorativa e filatélica:
- assinala a III FLAVEX;
- documenta a data do evento;
- valoriza a peça para colecionadores.
A segunda tem uma função operacional:
- integra o objeto no tratamento postal normal;
- confirma o percurso realizado;
- testemunha a passagem pelo sistema mecanizado dos CTT.
Em conjunto, as duas marcas permitem reconstruir documentalmente o percurso:
Porto (21.01.1950) → Lisboa (22.01.1950)
num intervalo de apenas um dia.
A importância marcofílica da peça
Para o colecionador de marcofilia do Distrito do Porto, esta peça é particularmente interessante porque preserva simultaneamente:
- o carimbo comemorativo de uma exposição filatélica portuense;
- a utilização efetiva do serviço postal;
- a marca mecânica de trânsito ou chegada aplicada pelos CTT;
- a obliteração complementar da vinheta da exposição.
Não estamos apenas perante um documento promocional da III FLAVEX, mas perante um objeto que demonstra a interação entre a filatelia organizada e o funcionamento real dos serviços postais.
Um testemunho dos CTT no pós-guerra
Setenta e cinco anos depois, a peça continua a ilustrar uma realidade frequentemente esquecida: muitas das correspondências preparadas para exposições filatélicas não eram meros souvenirs produzidos para arquivo. Circulavam efetivamente, sendo sujeitas aos mesmos procedimentos postais que qualquer outro objeto transportado pelos CTT.
Nesse sentido, o carimbo comemorativo da III FLAVEX só conta metade da história. A outra metade foi escrita pela máquina obliteradora de Lisboa, cuja marca confirma que a correspondência saiu do recinto da exposição para entrar na rede postal portuguesa.
É precisamente nessa combinação entre celebração filatélica e tratamento postal efetivo que reside o maior interesse marcofílico desta peça.
👉 A ficha de catálogo, com a análise técnica e histórica detalhada, encontra-se publicado no Acervo & Ensaio, órgão de estudo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro, onde o documento foi integrado no corpus de investigação do museu
